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Crônicas que contam histórias de Campos do Jordão.

 

Mata Sapo fica verde após um porre 


Mata Sapo fica verde após um porre

Mata Sapo eterinizado no quadro de Paulo Persifal, de 1968

 

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Mata Sapo era o apelido de um ser humano simples, infeliz, desprezado pela sorte e por muitos, na época em que viveu. Era um andarilho que perambulava pelas ruas e bairros da Campos do Jordão antiga.

Quase sempre andava sem sapato ou chinelo, ou mesmo aquele calçado mais barato que existia em sua época, denominado alpargata roda, feito de brim e com sola de sisal (corda). Sempre sujo, com um chapéu surrado na cabeça, uma barbinha rala, um saco de estopa jogado sobre os ombros e por cima de um paletó ensebado; algumas vezes, levava em outro saco algumas coisinhas, batatinha, chuchu, abobrinha, limão etc., que tentava vender quase sempre sem sucesso, pois ninguém queria comprar dele.

Ficava esperando que alguém com o coração mais humanitário lhe oferecesse algo para comer ou lhe desse um prato de comida. Havia sempre aqueles que gostam de ver o circo pegar fogo, acabando por pagar uma dose de cachaça ao coitado que, assim, acabou se entregando ao vício.

Era um coitado, pouco falava. Não ofendia e não maltratava ninguém, nem os animais. Todos que freqüentavam, especialmente, os bairros Capivari e Jaguaribe o conheciam de longa data. Era figurinha conhecidíssima, porém muitos nem chegavam perto dele.

Somente como ilustração, na década de sessenta, uma pessoa que veio passar uns dias aqui em Campos do Jordão e acabou ficando por vários anos, morando em uma das dependências do Campos do Jordão Tênis Clube de Turismo, em Vila Capivari, acabou sendo um amigo de muitas jornadas, seu nome era Paulo Percifal, artista plástico de grande habilidade com os pincéis e com os dedos, com os quais fazia muitas aquarelas, pinturas com tintas diversas, com carvão e cinzas de cigarro.

Nessa época, o Percifal eternizou o Mata Sapo em uma de suas telas que, posteriormente, adquiri e guardo até hoje com muito carinho; ela preserva parte da história de nossa cidade. Do Percifal tenho, também, quatro desenhos feitos com a cinza do cigarro, retratando meus pais e irmãos.

Bem, continuemos com o Mata Sapo. Em via de regra, nos finais das tardes e início das noites o coitado do Mata Sapo já estava pra lá de Marraquechi, como se costuma dizer. Já bem embriagado, ficava nas portas dos bares esperando que alguém lhe pagasse mais uma dose ou lhe desse algo para matar a fome.

Em certa oportunidade, ficou na porta do bar e snooker do Romeu Negro, ali em Vila Jaguaribe e que ficava ao lado da atual padaria Roma. Bebeu bastante. O bar fechou suas portas à noite e ele acabou dormindo sentado na calçada em frente ao bar, bem debaixo da caixa dos Correios. Essa caixa, de cor verde quase oliva, era feita de ferro fundido com mais ou menos oitenta centímetros de altura e quarenta de largura, tendo em sua frente, em alto relevo, o Brasão (escudo) da nossa República. Na parte de cima tinha uma abertura basculante onde, depois de levantada manualmente, servia para a colocação de cartas já devidamente seladas e que, no dia seguinte, algum carteiro, rotineiramente, vinha, abria e levava as correspondências para a sede dos Correios para encaminhamento.

No dia seguinte, nas primeiras horas da manhã, ainda lá estava o Mata Sapo dormindo embaixo da caixa verde dos Correios. Dois tremendos e eternos gozadores que moravam em Jaguaribe, o Marcelo e o Amado, passando pelo local e vendo a sena não titubearam. Foram até a Incos de Jaguaribe, casa especializada em materiais para construção, que ficou famosa em nossa cidade por mais de quatro décadas, compraram uma latinha de tinta verde e um pincel e se dirigiram ao local onde o Mata Sapo dormia o sono dos justos.

Acreditem, tiveram a pachorra de pintar a roupa, o chapéu, o saco de estopa que ele trazia sobre os ombros e até sua cara com a tinta verde, deixando-o da cor da caixa dos Correios, e sumiram do local.

Depois de algum tempo, o infeliz acordou e, aos poucos, foi dando conta do que tinha ocorrido com ele por meio de verificação própria e por comentários de terceiros.

A pintura do rosto foi difícil de sair, mas com um pouco de trabalho ele conseguiu livrar-se dela quase totalmente, ficando alguns resíduos no cabelo, bigode e barba; porém as roupas, o chapéu e o saco de estopa ficaram com a cor verde por muito tempo.

Coitado! Que Deus o tenha em bom lugar.

Edmundo Ferreira da Rocha

29/10/2005

 

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